Queres ser a minha história?



Queres ser a minha história?

Sem assinatura. Sem remetente. Sem destinatário. Apenas aquelas cinco palavras, escritas com maiúsculas cuidadosamente desenhadas, no centro de uma folha branca, dobrada duas vezes.

Olhou em volta, como se esperasse surpreender alguém a observá-la, mas o átrio do prédio estava vazio.

Nesse momento, a música que saía dos auriculares enfiados nos ouvidos deu lugar à seguinte; saltou com a diferença inesperada de volume e apressou-se a puxar o telemóvel do bolso e desligar o player.

Chegada ao segundo andar, procurou as chaves na mala (quase sem se dar conta, deixou no seu interior a folha de papel) e entrou em casa.

O Miguel estava na cozinha, a cantarolar e a mexer qualquer coisa na panela.

- Estou cá – informou, enquanto pousava as coisas e se dirigia à casa de banho. Quando voltou à cozinha, pousou o telemóvel na mesa, ao lado de um envelope A4 castanho.

- O que é isto?

- Chegou para ti – respondeu o Miguel, e deu-lhe um beijo rápido no canto da boca.

Pegando no envelope, começou a abri-lo enquanto comentava:

- Ainda não respondeste no grupo. Já todos confirmaram para quarta, só faltas tu.

- Estamos a falar do quê?

- Miguel! Do jantar de Natal com a Fatinha e os outros. Não tens estado a acompanhar a conversa?

Dentro do envelope estava um bloco de folhas encadernado. Na capa lia-se O Livro da Nossa História. Distraída, já não o ouviu responder (confirmaria depois do jantar).

Estava certa que aquele bloco era engano e, pousando-o na mesa, pegou de novo no envelope a fim de perceber a sua origem. Sem remetente. No entanto, o seu nome estava claramente escrito, bem como a morada, ambos naquela letra cuidada, só maiúsculas. Era ela a destinatária.

Mas do quê? E porquê?

- Precisas de ajuda? – perguntou, enquanto ligava o ecrã do telemóvel, mais por hábito que por necessidade.

- Não, está quase. Podes sentar-te um pouco; eu chamo-te quando estiver pronto.

Pegou no bloco, foi para a sala e, estendendo-se no sofá, abriu-o. Dez folhas. A primeira, em branco; na segunda, novamente o título. Da quarta em diante, folhas numeradas (1 a 5) e mais duas em branco. Apenas o número 1 tinha texto:

1.

Podia ter sido qualquer dia. No entanto, aquele pareceu-lhe adequado. Não saberia dizer porquê. Acordou com uma energia incomum e foi tomar banho. Perguntou-se para onde iria o primeiro pensamento dela, ao acordar. O dele continuava a ser ela, ao fim de todo aquele tempo.

Conhecia a sua rotina. Não devia faltar muito para que o despertador do telemóvel a acordasse com uma qualquer música bem-disposta. Ainda deitada, concedendo-se mais uns minutos de preguiça, consultaria as novidades matutinas nas redes sociais. E ele? Passar-lhe-ia (ainda) pela mente?

Confusa, largou o bloco no momento em que o Miguel anunciava que o jantar estava pronto.

O dia seguinte não trouxe novidades. Na verdade, só se lembrou do caso quando, ao preparar-se para pagar o café, deu com a folha na carteira. Mas a mãe ligou-lhe, e o momento passou.

No final do segundo dia, pronta para aproveitar uma noite de atualização das últimas tendências, já que o Miguel não estaria em casa, foi surpreendida com nova remessa.

2.

O plano já estava traçado. A data de fim também: 24 de dezembro. E porque não? Tê-la novamente no dia de Natal seria a melhor prenda que se poderia conceder. Que lhes poderia conceder. Tinha de acreditar que sim. O sucesso dependia disso.

Lá estava ela, linda como sempre, na sua indiferença. E se olhasse em volta? Vê-lo-ia? Reconhecê-lo-ia? Se afastasse por momentos o rosto perfeito do ecrã do telemóvel, conseguiria quebrar esse hipnotismo crónico e voltar à vida?

A lógica dizia-lhe que não estava a ser observada. O texto teria de ter sido escrito antes. Além disso, não estava a olhar para o telemóvel. Não naquele momento, pelo menos. Ainda assim sentiu-se invadida e incomodada.

A terceira página foi-lhe entregue por estafeta no trabalho, três dias mais tarde, quando ela já não saberia dizer se ansiava por outra carta – ou receava a sua chegada.

3.

Contas feitas, deveriam ter passado três dias desde a última carta, cinco desde a primeira. Se o plano estivesse a correr de acordo com o previsto, faltariam cinco dias para o grand finale. E ela já estaria curiosa.

Não teria estado à espera de receber uma carta no trabalho, mas tinha-a deixado feliz (estás feliz?). Sabia que ela já percorrera a lista dos possíveis remetentes, vasculhara números antigos – e até recentes! -, amigos e amigos de amigos no Facebook, paixões velhas, ou não, que pudesse ter despertado. A dele não esmaecera. Conseguiria reacender a dela?

Mais dois dias. Ao chegar a casa, lá estava ela à sua espera no correio, o número 4 bem desenhado.

4.

Já conseguia perceber a mudança. Não saberia dizer se o motivo era o pretendido. Afinal, só queria que ela estivesse mais atenta – não a quisera alarmar. O facto é que ela olhava as pessoas na rua, estudava-lhes os rostos em busca se sinais, de pistas. Olhava-as. O telemóvel e o seu mundo virtual passavam cada vez mais tempo na mala, onde pertenciam.

E como ela ficava magnífica assim, de cabeça erguida, enfrentando o mundo. E como ele a reencontrava, cada dia um bocadinho mais, aquela por quem se perdera de amores…

O jantar da Fatinha foi quase um martírio. Faltavam dois dias para 24 de dezembro e continuava a não receber qualquer carta. Sentia-se a ficar paranoica, observando atentamente os rostos daqueles amigos de há tantos anos em busca de um sinal que lhe apontasse o autor.

24 chegou; durante todo o dia ela antecipou o momento e a forma de revelação de toda aquela história. Combinara encontrar-se com o Miguel, às seis, no jardim perto de casa, depois das compras de última hora. No seu devaneio, imaginava até que seria ele a chegar, como se de mãos a abanar, e tiraria a última carta do bolso do sobretudo. Mas eram seis e dez e o Miguel não chegara nem ligara a avisar do atraso.

Sentada na borda da fonte, assustou-se quando uma criança lhe tocou no ombro e lhe estendeu uma carta, saindo a correr em seguida.

5. 

O golpe de mestre! E tudo dependeria da sua própria ligeireza. Sim, porque precisaria de observar, assegurar-se que tudo correria como combinado e, ainda assim, estar pronto para a receber quando ela voltasse para si. E não seria difícil. Ela já suspeitaria. A dúvida persistia porque desconhecia aqueles seus dotes para a dissimulação.

Mas bastaria que a criança lhe entregasse a carta. No envelope, sempre sem remetente, apenas as palavras Amo-te. Fico à tua espera. Ele não apareceria, e então ela saberia e sairia do jardim, correria até casa, recordando como tudo começara, naquele dia em que, ao chegar e antes de subir…

A frase terminava a meio. Não saberia explicar a alegria que a invadia naquele momento porque já tinha certeza, já sabia como a história terminava.

Levantou-se do banco e percorreu o jardim. Precisava de chegar a casa e a distância parecia estranhamente maior, como se a ânsia de chegar a esticasse de alguma forma.

Entrou no apartamento quase a correr. O Miguel estava na entrada, encostado ao aparador e sorria, de braços cruzados, que logo se abriram para a acolher quando o abraçou e sussurrou a resposta à pergunta que ainda não lera “Sim”.

Do bolso de trás das calças, ele tirou uma folha dobrada em quatro e estendeu-lha.

… remexera distraidamente na caixa do correio, num gesto mecânico, repetido diariamente. No seu interior havia apenas uma folha de papel dobrada, sem remetente nem destinatário. No centro da folha, apenas cinco palavras:
Queres ser a minha história?

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