A entrevista
Saiu do gabinete do chefe de redação do jornal onde
trabalhava e ligou imediatamente para o palácio presidencial. Depois de se ter
apresentado à telefonista, só teve de aguardar uns minutos antes de ser
atendido pela governanta. Perguntou-lhe se se lembrava dele. Quando ela lhe
respondeu afirmativamente, considerou a resposta um bom augúrio. Avançou então
para a questão que originara o contacto:
- Acha que seria possível entrevistar o Sr. Presidente?
Afinal já faz mais de dois anos que ele deu uma entrevista.
A resposta tardou. Chegou a pensar que ela tinha desligado o
telefone ou abandonado o auscultador, e, quando já pensava em desligar, ouviu
do outro lado da linha, depois de um longo suspiro, a seguinte resposta:
- Vou ver se é possível. Amanhã, ligue-me a esta hora.
E desligou. Sem dizer mais nada, nem sequer se despedir.
Ele deixou cair o auscultador, mas voltou a levantá-lo.
Entalou-o entre o ouvido e o ombro e discou o número de um amigo, enquanto
tirava um cigarro do pacote e o acendia.
Como não atendesse, desligou e voltou ao gabinete do chefe.
Anunciou triunfante:
- Ligo amanhã à mesma hora.
E ao mesmo tempo que falava virou os polegares para cima.
O dia estava terminado. Pegou num dossiê onde estavam vários
recortes de jornais com as entrevistas e últimas notícias sobre o Presidente e
decidiu levá-lo para ler enquanto jantava. Não tinha companhia e aquela leitura
ajudá-lo-ia a passar o tempo. Depois de jantar, sempre de olho nas páginas,
ligou o rádio. Era assim que entrava no sono. Sentava-se no sofá, ouvia música
e depois estendia-se, colocava uma almofada debaixo da cabeça e a música parecia
cada vez mais distante.
No dia seguinte, chegou à redação e leu o jornal diário da
primeira à última página. Começou de seguida a alinhar as perguntas que faria
ao Presidente. À hora marcada, voltou a ligar. Depois de se anunciar, passaram
imediatamente à governanta. Ela disse-lhe que ele estava de acordo com a
entrevista. Se quisesse podia ser ainda naquele dia, mas, avisou-o, teria de
chegar meia hora mais cedo para que ela lhe explicasse a situação.
Desligou o telefone e correu escada abaixo. Chegou ao
palácio menos de meia hora depois da conversa. Apresentou-se e disseram-lhe que
podia entrar. Foi revistado e mandaram-no esperar numa sala. Pouco depois, ela entrou.
O tempo tinha-lhe conferido uma dignidade que a juventude não lhe admitira.
Cumprimentou-o estendendo uma mão seca. Ele levantou-se e aguardou que ela se
sentasse na cadeira ao lado para se voltar a sentar.
- O Sr. Presidente aceitou dar a entrevista, mas tem de
saber que desde que saiu do hospital está muito fraco. Os médicos desaconselharam
a leitura de jornais e proibiram mesmo a televisão. Ouve um pouco de rádio, mas
apenas música. Como calcula, os médicos também foram de opinião que não teria
condições para continuar a exercer as mesmas funções, mas como reagiria muito
mal ao seu afastamento, optámos por o manter nesta situação.
- Que situação?
- Na que lhe acabei de explicar. Por isso terá de ter muita
cautela nas perguntas de forma a não o incomodar, nem o deixar perceber o que
tem acontecido por cá nos últimos tempos.
Dito isto, levantou-se e caminhou para a porta, mas ele
antecipou-se e abriu-a para lhe dar passagem. Depois seguiu-a pelo longo corredor,
com várias portas de ambos os lados. Através de uma delas, entreaberta,
conseguiu vislumbrar uma sala comprida, com uma mesa redonda ao centro, à volta
da qual se sentavam diversas pessoas. Teve de apressar o passo para a apanhar. Saíram
para o jardim. Ele estava sentado num cadeirão, ajoujado de almofadas.
Entardecia.
Percebeu que teria de se postar à frente dele para que o
visse. A governanta aproximou-se, ajeitou-lhe as almofadas e a manta que lhe
cobria as pernas. Apontou-lhe uma cadeira para que se sentasse em frente do Sr.
Presidente. Assim que o fez, o Sr. Presidente começou a falar.
Comentou o tempo e perguntou-lhe como estava. Não soube
dizer se o reconhecera ou se a afabilidade que evidenciava era resultado da
quebra causada pela doença. Aproveitou a primeira pausa para uma pergunta sobre
a situação internacional. O Presidente começou a falar, com voz lenta e
arrastada, mas evidenciando um conhecimento atualizado sobre o que se passava
no mundo. Optou por não o interromper e esperou por nova paragem para lhe
perguntar pela situação interna. Discorreu sobre o passado como se fosse o
presente. Como se o tempo tivesse parado no momento em que ele fora internado. Depois,
sem mais, começou a falar dos ministros, os que já tinham trabalhado com ele, uma
imensa lista, e a todos insultou. Cada epíteto pior que o anterior. O tom de
voz ia subindo e com a mão direita, a única que movia, começou a bater no braço
da cadeira cada vez com mais força. A governanta, que se mantinha próxima,
apercebeu-se da situação e veio acalmá-lo. Anunciando o fim da entrevista, pegou
no jornalista por um braço e percorreram o caminho inverso ao que tinham feito.
Quando chegaram à porta, disse-lhe que ele não podia escrever uma linha do que
se passara ali.
Ele fez que sim com a cabeça, mas quando chegou à redação
sentou-se e escreveu. Tudo. Como estava vestido, como mexia apenas o braço
direito e os nomes com que designara todos os ministros. Como pensava que ainda
mandava. No final, releu. Não se esquecera de nada. Entregou o texto. Foi para
casa. Não levava nada para ler, mas sentia-se esgotado. Não precisaria de ficar
no sofá a ouvir rádio para adormecer.
No outro dia, chegou mais cedo e começou a ler o jornal, à
procura do seu artigo. Não estava na primeira, nem na segunda, nem na terceira,
nem sequer na última página. Não tinham publicado a entrevista.
Foi ao gabinete do chefe de redação. Estava vazio. Não tinha
chegado ainda. Resolveu aguardá-lo à porta.
Quando o viu aparecer, perguntou-lhe à queima-roupa porque é
que a história não tinha sido impressa. Era um furo. O Presidente que não sabia
que já não o era. Era um boneco articulado. As pessoas não sabiam.
O chefe passou por ele e disse-lhe apenas:
- Não sabem, nem têm de saber.

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