Gorian Dray


Por fim, o botão azul onde se lia "Confirmar". E, voilá, Gorian Dray era agora mais um membro da comunidade Facebook. O perfil estava criado e fizera-o minuciosamente, como, aliás, era o seu procedimento habitual. Reviu mentalmente os passos até à formalização da criação do perfil: indicara o seu nome e contactos, o seu sexo e local de habitação; descrevera-se em poucas palavras, especificara a faculdade e o curso que frequentava; adicionara os seus gostos e preferências de séries, livros, jogos, música e comida; e, claro, carregara a sua foto de perfil, aquela que, ao fim de treze tentativas, saíra não só decente como bastante satisfatória. Agora, bastava apenas...

"Plim"!
Uma caixinha surgiu no canto do computador.
"Plim"!
Outra caixinha?
"Plim"! "Plim"! "Plim!"
No ícone do mundo, uma etiqueta vermelha assinalava o número cinco.

Gorian nunca fora muito dado às inovações tecnológicas e redes sociais, mas desde que entrara para o curso de teatro que sentia a pressão crescente dos seus pares para aparecer, divulgar a sua imagem e talento; no fundo, dar-se a conhecer ao mundo e, em particular, a potenciais agentes ou qualquer outra pessoa influente no ramo.
Findo o primeiro semestre, foi um choque para Gorian, que nunca duvidara do seu talento e capacidades como ator, e sempre se sentira caminhar de braço dado com a bonança, perceber que se encontrava no patamar dos “normais”. Não dos “excelentes” ou “prodígios”, nem mesmo dos “surpreendentemente bons”. Dray era apenas normal.
Nem a sua linda face, de pele e olhos claros, ou o cabelo de um louro escuro e anelado, nem a sua bem estruturada compleição o distinguiam naquele meio. Era bonito. Como a maioria dos demais.
Fora, na verdade, um bruto choque com a realidade e nada fácil de digerir. Filho único numa família sem dificuldades económicas, constituída por um pai, uma mãe e uma mais-que-mãe, que era a sua avó materna, Gorian crescera rodeado de atenções e com todas as portas abertas com pompa para a sua passagem. Isso não o tornara um miúdo caprichoso nem tão-pouco arrogante. Era um bom rapaz, a quem tudo parecia correr de feição e, por isso mesmo, absolutamente despreparado para o confronto com o mundo para lá da redoma que constituía a sua rede de segurança.
Durante os primeiros meses, procurou manter essa rede à sua volta: todos os fins de semana regressava à casa onde crescera e onde era recebido como o herói que sempre se sentira. De lá voltava apenas quando estritamente necessário, apetrechado de recipientes de comida congelada, feita com todo o amor pela avó e a mãe, e mais umas quantas recomendações e votos de sucesso e felicidades e Até-para-a-semana. Voltava para a sua casinha totalmente mobilada, onde vivia sozinho, começando a criar o seu espaço. Conquanto se mantivesse protegido e seguro, envolto, mesmo à distância, no abraço da família, Dorian passava os seus dias isolado, pouco saindo ou convivendo - não mais do que os períodos passados com os colegas nas aulas, intervalos e furos. Dava-se bem com toda a gente, mas não cimentava as amizades.
Ao aperceber-se das preferências dos professores - que não recaíam sobre si -, começou a retrair-se, perdendo, aos poucos, parte da confiança que lhe fora incutida desde pequeno.
Quando o final do semestre começou a aproximar-se, alguns dos seus colegas começaram a ser chamados para pequenos trabalhos ou participações auxiliares - e Gorian sentiu o peso do fracasso de não corresponder às expectativas: suas e da sua família.
Sentia-se desconectado da vida universitária e incapaz de correr atrás das oportunidades. Era como se tudo o que surgia só chegasse ao seu conhecimento depois de acontecer. E, assim, Dorian decidiu que precisava de aparecer, de frequentar os círculos que, naquele mundo, lhe abririam as portas que precisavam de ser abertas. Aproveitou o Natal para informar a família que as visitas seriam mais espaçadas, criou a sua conta e abriu o espírito para o mundo da entrega.

O telefonema chegou cerca de três semanas depois do regresso. Sem pré-aviso. Nem o telefonema, nem a dor indizível que se lhe alojou no peito. A Babu, a sua mais-que-mãe, deixara este mundo. Sem se despedir. Aquelas férias tinham sido as últimas e nenhum deles soubera que o Adeus-Até-já seria um Adeus-para-sempre. A ida a casa para a despedida final foi como um sonho febril do qual mal se conseguia recordar. Não se lembrava como tinha ido, nem como tinha regressado. Sabia o que acontecera muito no fundo da sua mente, mas na verdade, era como se o tempo se tivesse eclipsado nesses dias e ele tivesse apenas acordado quatro semanas depois de ter voltado do Natal.
O dia estava cinzento, tal como os pensamentos que se acotovelavam dentro da sua cabeça. Era como se, de alguma forma, existisse um canal de comunicação direta entre a cor do dia e o seu estado de espírito, como se as nuvens lá fora ensombrassem o seu interior imprimindo-lhe uma tonalidade mais escura, mais pesada. Visão distorcida; coração pesado.
Ligou o computador e clicou no ícone já guardado nos favoritos para entrar no Facebook. Lá estavam as bandeirinhas vermelhas anunciando novos pedidos de amizade e umas quantas notificações. Começou pelas últimas, revendo os comentários lisonjeiros dos seus “amigos” virtuais e revisitando as últimas postagens, abruptamente interrompidas desde há uma semana. Três semanas tinham sido o suficiente para se ambientar à plataforma, associar a grupos e entrar nesse jogo e dar e receber - “gostos”, fotografias, frases inspiradoras, comentários. Passou em revista as novidades de colegas e conhecidos, entrando um pouco mais nas suas vidas, com as suas fotografias de família, decorações de natal e prendas recebidas. Esta atividade manteve-o entretido durante cerca de quarenta minutos; quarenta minutos em que conseguiu calar o turbilhão que lhe enchia a mente. O peso no peito, esse, mantinha-se lá. Mas conseguia ignorá-lo por alguns minutos de seguida. Já não era mau.
Também Dray partilhara um pouco do seu Natal: as luzes, as cores, ele próprio nelas envolto. Ao revê-las, a pontada no peito gritou novamente. Precisava de ar. Precisava da avó. E ela já não estava ali. Num momento de fraqueza, escreveu isso mesmo. A falta que ela lhe fazia. Não foi preciso muito tempo para que as mensagens de condolências começassem a chegar, tanto na sua página como por mensagem. E ali, naquele final de manhã descolorido, Gorian Dray não se sentiu tão sozinho.

Retomar as aulas foi uma nova prova de fogo. A sua decisão de lutar por um lugar de destaque esbatera-se ante a perda, mas simultaneamente sentia uma urgência em si que o impelia a manter a luta. Como se a ausência da Babu esmorecesse o espírito e ao mesmo tempo o espicaçasse - uma homenagem à mulher que nunca dele duvidara, ou, talvez, a necessidade de provar que essa mulher não se enganara ao acreditar nele. De outra forma, teria sido um desperdício.
Debatia-se sobretudo a representação, a precisa disciplina na qual mais queria exceder-se. O motivo da escolha do curso. Mas as expectativas, tudo o que ele próprio queria dar de si, eram demasiadas para o seu espírito enfraquecido. O professor, porém, era implacável e Gorian decidiu que as suas frustrações, a sua incapacidade de singrar, advinham dos abusos do docente. Ainda o semestre não ia a meio quando Gorian se sentiu desintegrar em frente de toda a turma. Naquele dia, o professor queria que cada um partilhasse com a turma o seu momento mais doloroso. Foi um espetáculo de lágrimas e soluços de tal forma asfixiante que, chegada a vez de Gorian, este se recusou participar. A memória da Babu a ser deitada à terra ainda estava demasiado presente, a ferida demasiado aberta. Dray manteve a sua decisão e aguentou até ao discurso final do professor, levantando-se rápido, quando este terminou, e ainda antes de os dispensar.
Chegou a casa e atirou com a mochila para o sofá, desferindo neste último um forte pontapé que não aplacou a frustração que sentia.
Em cima da secretária, a luzinha verde do computador em hibernação piscava, como que chamando por ele. Carregou no botão, para o ligar e aguardou que o ecrã se iluminasse para mostrar a última janela aberta: o Facebook, como já se tornara hábito.
Contra a escuridão da rua, o vidro da janela presumia-se espelho e devolvia-lhe um ténue reflexo da sua cara - apenas metade, a parte iluminada pelo candeeiro de mesa, que acentuava a seriedade do seu olhar, envolto em fundas rugas de apreensão precoces para a sua idade. O outro lado da face mantinha-se na obscuridade, o mero desenho do contorno evidenciando a sua existência.
As palavras do professor ressoavam-lhe no interior do crânio, num frenesi de entoações e alturas que fugiam ao seu controlo.
Apalpou os bolsos das calças em busca do telemóvel, barafustando quando o não encontrou; teria de se levantar e voltar onde deixara a mochila e, dessa forma, perderia o enquadramento. Olhou-se novamente ao espelho de improviso, procurando registar a posição em que se encontrava na cadeira e em relação à mesa, à janela, ao candeeiro, antes de se levantar. Por algum tempo, as vozes calaram-se, sem que ele se tivesse apercebido da calmaria.
Voltou à mesa, de telemóvel em riste, pronto para captar a imagem. Desativou o flash, retomou a posição de segundos atrás e fez algumas tentativas até conseguir uma aproximação daquilo que via na janela. Forçou-se, então, a ouvir novamente as palavras que professor lhe  dirigira (falara para a turma, mas sabia que ele era o alvo; algo no tom e num rápido relance que lhe não passara despercebido). Pegou nelas, torceu-as e moldou-as como se fossem suas; passou a fotografia escolhida para o computador, onde a trabalhou até ficar perto de perfeita, e partilhou tudo.
A sua cara surgiu no ecrã - apenas metade, a metade iluminada pelo candeeiro de mesa. A madeixa do cabelo caía-lhe de forma sensual sobre o olho visível. Uma tonalidade alaranjada criava o ambiente e, para lá da cana do nariz, a escuridão. Por cima, Gorian transmitia o seu estado de espírito emprestado: Busquemos no lado obscuro da alma os nossos segredos mais profundos e tragamo-los a cena. São eles o alimento da arte.
O reconhecimento foi quase imediato. Choveram “gostos” e comentários - Vais longe, meu.; Bravo, é esse o caminho!; Os grandes atores passam emoção porque a conhecem. Que os males da vida te sirvam de ensinamento..
Uma janelinha abriu-se no canto do computador. Eu posso ajudar-te a debelar esses fantasmas, se quiseres.
Foi uma curta relação que não passou da plataforma interativa. Durante umas poucas semanas, Gorian e Samanta trocaram mensagens com maior ou menor frequência, conforme a disposição (dela). Estavam em turmas distintas, partilhando apenas uma aula teórica. Cruzavam-se nos corredores e sorriam-se, ela, provocadora, ele, timidamente. E nunca chegaram a falar ao vivo. Um dia, ao cruzarem-se, o sorriso dela alargou-se e manteve-se para lá dele. Quando olhou sobre o ombro, o sorriso fora afogado num imenso beijo com um colega do ano acima. Acabaram as mensagens e o frio na barriga ao ligar o computador. Samanta mantivera-o distraído momentaneamente e o seu silêncio ensombrou ainda mais a solidão de Dray.
Os dias arrastavam-se e, como uma fotografia deixada ao sol, a vivacidade de Gorian esbatia-se um pouco mais com cada vinte e quatro horas passadas. Quanto mais vazio o seu peito, findo um novo dia de aulas, mais vivaz o espírito que imprimia nas suas partilhas. A vida que não conseguia viver no mundo real, vivia-a nas redes sociais. As suas fotografias eram lindas e as frases que as acompanhavam, espirituosas. Passava as suas horas de ócio a procurar novos conteúdos, novos contactos. Chegou a ser chamado para um casting e rejubilou ante o sucesso da sua estratégia. Mostrara-se e fora visto. Partilhou, orgulhoso, uma foto-reportagem da experiência: a sala repleta de candidatos; as horas que passavam no seu relógio de pulso; ele mesmo, nas diversas posições e disposições ao longo da espera. Um dia rico de experiências divulgadas que não passou disso. Gorian não foi chamado para a segunda fase; mas deixara registado o seu sucesso, testemunhado e ovado por todos os seus amigos interativos: aqueles com quem apenas trocava duas palavras por dia, nas aulas, e os outros, os que não conhecia mas que o seu perfil rico e sempre em renovação cativara.

O ano aproximava-se do fim. Demasiado cedo. Gorian não sabia onde se havia metido o tempo entre a sua entrada retumbante na faculdade, com a Babu a abraçá-lo e a sussurrar-lhe Mostra-lhes como se faz, e o princípio daquelas três semanas finais. Como se tivesse estado a percorrer um tunel escuro, sem noção da passagem das estações, partindo de um outono luminoso para chegar a um verão soturno. Ou assim lhe parecia. Desde a partida de Babu que os dias lhe pareciam todos um pouco mais baços.
Aquele seria o dia em que o professor de representação passaria o exercício final, para avaliação. Dray não saberia dizer como se sentia em relação a isso. Entendia que a relação com o professor não tinha salvação e, assim, possivelmente também a não teria a sua nota. Tirar um curso de teatro e chumbar a… teatro… o que diria a Babu disso? Nesse aspeto, talvez fosse melhor que já não estivesse lá para assistir àquele naufrágio.
As instruções foram simples: os alunos deveriam procurar bem no seu âmago aquilo que entendiam ser a característica que melhor os definia. Depois, teriam duas semanas para preparar uma cena, um monólogo em torno dessa característica.
Não vai ser simples. Advertiu o professor. Não quero simples. Quero as vossas entranhas cá fora. Quero que me mostrem a vossa vulnerabilidade. Para alguns de vós, não vai ser bonito. Pausa. Pareceu a Dorian que o olhar lhe tinha sido dirigido. Eu não quero bonito. Quero sentimento e verdade. Convençam-me, comovam-me. Só assim se tornam atores.
Então, pediu-lhes que se dispusessem lado a lado em frente do espelho que corria as paredes da sala, de ponta a ponta, e disse-lhes que se olhassem. Que se olhassem, até se verem por dentro, por mais tempo que isso levasse. Faltavam vinte e cinco minutos para o final da aula. Se precisarem, podem ficar até ao fim do intervalo.
Gorian aproximou-se devagar do espelho, sem saber exatamente o que deveria procurar. Por algum motivo, sentia-se para lá de desconfortável com o exercício. Demasiado habituado a ver-se através dos filtros que colocava nas suas fotografias já tiradas com a função de embelezamento ativa.
Ainda de cabeça baixa, chegou-se mais ao vidro, esticando as mãos até ficar à distância do seu antebraço. E então olhou. Encarou-se no espelho como não fazia havia meses. Encontrou os seus olhos, encovados nas olheiras, baços e de escleróticas assustadoramente vermelhas. Na verdade, aqueles olhos que lhe eram devolvidos pareciam pertencer a alguém demente. A pele em torno deles encontrava-se vincada, áspera como papel antigo; as protuberâncias ósseas desenhavam-lhe rigidamente os contornos da cara.
Gorian continuou a olhar para aquela face que não acreditava poder ser a sua. Reviu-se como todos os viam há mais de quatro meses: o sorriso enigmático, a sombra da madeixa de cabelo sobre a cana do nariz direito e bem desenhado, as suaves rosáceas que lhe enfeitavam as bochechas e lhe enchiam os lábios; mas não se encontrou. Nada naquela figura seca se assemelhava a qualquer imagem que mantinha de si.
O aperto no peito intensificou-se e Gorian sentiu-se sufocar, lágrimas subindo-lhe aos olhos e conferindo-lhes um brilho longe de saudável e que, quanto muito, acentuava as marcas já deixadas pela solidão e as muitas (demasiadas!) horas passadas ao computador.
Procurava-se naquela sobra de pessoa em que o espelho insistia que se tinha tornado e, inesperadamente, a palavra pedida moldou-se-lhe na língua, ressoou-lhe nos dentes e até ao interior do crânio. Veio com o desespero do reconhecimento e o alívio da definição. Naquele preciso momento, viu-se, entre a turbidez das lágrimas salgadas que lhe toldavam os olhos, e encontrou-se, talvez, no brilho rápido que lhe iluminou a tez. Quem ele era, defronte do espelho; quem se mostrava ser, sob o abrigo de um ecrã.
A palavra gritava, agora, debatendo-se por sair, por se libertar. E ele saboreava-a, porque reconhecia o potencial que ela guardava em si; não era apenas a forma de se encontrar, era a forma de se encontrar por meio do teatro, porque sabia que aquela palavra que o definia naquele instante era o trunfo que ele poderia lançar para finalmente ser visto. O professor estava certo. Bastava arrancar a pele e expor no peito o seu maior segredo, aquele que escondera até de si próprio e que sabia, agora, que era aquilo em que se tinha tornado. E, num murmúrio, deixou-a sair, aquela palavra que seria o início de tudo e resumia a duplicidade do seu ser.

Fraude.

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